Sábado, Agosto 28, 2010

Sobre a falácia da natureza humana


Um dos argumentos que ultimamente mais tem me dado nos nervos é o argumento da natureza. Alguém, numa discussão, em certo momento fica sem razões para debater, e então apela para a velha história do “é da natureza das coisas”, ou, no caso que me aborrece em especial, “é da natureza humana”.

Esclareço a coisa com dois exemplos: o primeiro é com relação à minha ambição financeira na vida. Quem me conhece intimamente sabe que a única vocação que tenho é a de ser algo entre hippie e pintor de beira de estrada. Apesar de minha situação social ser comparativamente bastante elevada, eu nunca me desacostumei da época em que eu era pobre de verdade. Meus pais ficam estarrecidos (muito embora tenham sido eles mesmos quem me ensinaram que dinheiro não é sinônimo de felicidade). Meu pai em especial, não se conforma de eu ter estudado direito na USP e não almejar um emprego público do naipe de juiz ou promotor. Eu argumento com ele isso que disse aí em cima, que não me incomodo em ser pobre desde que eu não trabalhe em algo que me seja horroroso (como seria se eu fosse juiz ou promotor, por exemplo). A gente debate e tal, e chega um momento em que, tendo seus argumentos abatidos todos por mim, ele balança a cabeça e olha para o nada dizendo “mas é do ser humano ter ambição na vida”.

Outro exemplo é a reação inconformada que um amigo meu teve quando soube que eu iria fazer vasectomia tão logo completasse 25 anos. A primeira coisa que ele concedeu foi: “você vai congelar seu sêmen antes, né?”. Eu respondi: “você não pode estar falando sério”. Porque seria ridículo eu fazer vasectomia congelando meu sêmen antes. Afinal, alguém faz vasectomia porque quer erradicar quaisquer chances de gerar descendentes. E isso não acontece quando se congela sêmen, certo? Começamos então nós dois a discutir sobre isso. Ele, assim como a maioria das pessoas com as quais eu falei sobre isso, insiste no mesmo ponto morto: “você é muito novo para ser vasectomizado”. Bom, esse debate rende e merece outro texto só para ele, mas o que interessa é que a mesma coisa que aconteceu com meu pai aconteceu com este meu amigo. A única “argumentação” que lhe assistiu e na qual insistiu foi: “é da natureza humana querer ter filhos do próprio sangue”.

Certamente todos nós já ouvimos coisas do tipo. Que direitos humanos são um fracasso; que socialismo nunca funcionará; que é impossível não odiar o ex-namorado (e sua nova namorada), etc. Tudo porque é da natureza humana ser filho da... digo, mau. Isso geralmente significa pelo menos uma dentre duas coisas:

1) Como agir de tal forma é da natureza humana, não dá para fazer diferente. O livre-arbítrio fica numa situação estranha aqui. Se a pessoa teimar em fazer diferente da natureza humana, necessariamente irá sofrer porque... porque... ora, porque é antinatural! Não é da natureza humana comer pedra; coma pedra e você irá se dar mal. Mais ou menos assim.
2) Supondo que existe livre-arbítrio na natureza, ele sempre será limitado por uma ordem necessariamente moral. Aqui recai normalmente todos os argumentos tortos contra a homossexualidade, por exemplo. Dizem que a natureza pede a união sexual entre macho e fêmea, e como a homossexualidade mostra que, sim, dá para fazer diferente, os boquiabertos respondem que ir contra a natureza é errado.

Em resumo; quem usa esse argumento da natureza humana geralmente quer dizer que a alternativa é impossível ou má.

Sempre que me vêm com isso, eu digo a eles que, puxa vida, isso é impressionante! Eu, pelo menos, conheço, sei lá, umas vinte pessoas intimamente, a ponto de conjecturar sobre a “natureza” delas. A humanidade atualmente passa dos seis bilhões. Isso sem contar as pessoas que já morreram e as que ainda virão, em toda a extensão da História. Imagino eu que, se (vejamos bem, se) existe uma natureza humana, não seria no mínimo precipitado induzi-la, assim com tanta autoridade, a partir de dados tão limitados? Alguém conhece profundamente a psique de toda a humanidade que existiu, existe e existirá? Claro que não. Ou seja, trata-se de uma falácia. Presume-se um conceito como óbvio e claro, e nem sabemos se ele existe na realidade. Contudo, por obscura e impalpável que seja a noção de natureza humana, ela serve muito bem aos propósitos da maioria dos argumentadores que debatem sobre qualquer assunto humano. Não percebem que são outros valores inquestionados que os impelem para suas conclusões, e tentam, num aparente raciocínio lógico, legitimar suas posições afetadas (nada contra afetos, desde que sejam honestamente expostos no debate). No caso do meu pai e do meu amigo, eu posso fazer hipóteses desses valores (já que eles não os expõem) como sendo uma valoração positiva da riqueza e narcisismo, respectivamente (... ambas censuráveis, mas isso é outro tópico...).

Ainda, uma outra hipótese que faço é que, na verdade, eles não conseguem aceitar que outra pessoa, que por fora é igualzinha a eles, consiga ser, no fundo e no essencial, diferente. Mas é só uma hipótese (que também posso trabalhar em outro texto). No fim das contas, pode até mesmo ser que a História comprove que realmente existe uma natureza humana e que de fato ela consista numa irresistível vontade de amealhar riqueza e de produzir filhos do próprio sangue. Meu pai e meu amigo podem ter razão quando dizem que “todo mundo é assim”. E por esse lado, é até meio engraçado vê-los inconformados comigo porque, nesse caso, pode ser também que eu realmente não seja um ser humano, não é?

4 comentários:

Omar Ajoue disse...

Belíssimo texto, e concordo muito com ele. Inclusive argumentarei a favor de alguns pontos, mas terminarei com uma visão diferente da sua.

A argumentação de que faz parte da natureza humana de certa forma é válida. É parte instintiva e inerente do ser humano sim desejar a ambição; tudo por conta do egoísmo e necessidade instintiva de superioridade. Mas viver em sociedade significa abrir mão da nossa animosidade pelo bem-estar comum. Não há regras de convivência, mas há um "código" que nos rege. Haviam coliseus até "pouco" tempo atrás, e até hoje, ainda há touradas. Fazem parte do instinto de violência, que existe. Cada um vivencia de uma forma. Há pessoas que choram, que brigam. Eu canto músicas violentas.

Quanto aos argumentos relacionados à homossexualidade, saiba que na própria natureza há homossexualismo entre os animais.

E pra mostrar a minha contradição quanto ao que você diz, vem justamente o meu post inteiro desta semana. Você é sim humano, e possui uma concepção diferente do seu pai e do seu amigo.

E não sei dizer se feliz ou infelizmente, sua concepção é diferente de uma gigantesca parte do mundo =/ Isto é a causa do seu maior conflito.

Nefelibata disse...

Pois é, nossos textos se comunicaram, isso foi bem interessante. Mas com relação ao seu comentário, só tenho duas ressalvas:

1. Esse negócio de bem-comum é um mito, viu... isso significa várias, várias coisas; um dia desses escrevo um texto falando sobre isso.

2. Eu não vejo validade alguma no argumento da natureza humana por um simples motivo (que parece que não ficou claro no texto): não há como demonstrá-la. As pessoas sentem algo, idenfiticam esse algo em um outro punhado de gente e daí concluem erroneamente que "todo mundo é assim". E isso é falso. Eu aceitar alguma validade em outro tipo de argumento, que seria o seguinte: "não é a natureza humana, mas uma convicção muito forte que eu, enquanto indivíduo, tenho, e que aparentemente muitos outros também têm". Mas isso tem um efeito indesejado: abre possibilidade para a existência e a aceitabilidade de quem é diferente da maioria.

Nefelibata disse...

Ah, só um detalhe, Omar... coisas do discurso da atualidade: "homossexualismo" soa como se fosse doença ou algum comportamento condenável, tipo "estrabismo", "sexismo", etc. A galera do meio prefere o termo "homossexualidade", que soa mais como uma qualidade, tal como "sexualidade". =]

wilsonkm disse...

mas quem disse que uma argumentação tem a pretensão de "expressar a verdade"? uma argumentação é uma argumentação, oras, assim como um pão de queijo é um pão de queijo. eu sou vegetariano[-vegan], mas você pode não ser.

sócrates não saiu de moda, saiu de sentido :)