Sexta-feira, Dezembro 02, 2011

Cálice




Meu Deus, meu Deus, por que nos abandonastes? Por que nos abandonastes em favor de vosso filho favorito, e por que o deixastes ser sacrificado para remissão de nossos pecados? Por que o fizestes, se, em vossa onisciência, sabíeis que nenhum pecado pode ser redimido por outro corpo, por outra alma, por outro sofrimento? Por quê, por que nos abandonastes? Por quê, meu Deus, por que arrebatar somente a ele, que é divino também, que é forte, que tem fé, e que vos obedece firme e apaixonadamente? E quanto a nós, fracos, pecadores, tolos, mesquinhos, que com nossas próprias mãos cegamos nossos próprios olhos todos os dias? Nós, que bebemos vinagre e dizemos ser vinho, que levamos chicotadas e dizemos ser carícias. Nós, que idolatramos um bezerro de ouro, e nele nos comungamos em fidelidade duradoura e diária, comendo sua carne e bebendo nosso sangue, numa orgia em que não sabemos mais de quem é a carne, de quem é o sangue, de quem é o prato e o dente, a mão ou a labuta. Nós, que nos imolamos no fogo de todos os sóis e nos temperamos no orvalho de todas as luas para que o ídolo dourado não seja derretido. Nós, que inebriados pelo brilho do falso deus vemos nossos rostos desesperados no reflexo de sua lâmina, e, já perfeita a eucaristia, mentimos para nós mesmos, fingindo-nos em nossa arrogância, em nossa hybris, sermos o senhor do deus, e o deus nosso servo. Nós, que em furiosa defesa e homenagem de nossa liberdade, nos atiramos às chamas no lugar do animal que seria nosso bode expiatório, às chamas do inferno que ardem eternamente, que ardem para além do horizonte, para além das gerações, para além das imaginações. E quanto a nós, infiéis, sísifos, gananciosos, teimosos, insensíveis, agressores, cruéis, traidores? E quanto a nós, fracos? Por que não nos levais? Por que não nos fulminais, como o fizerdes em Sodoma e Gomorra? Por que não nos tomais como o fizerdes com os escravos de seu fiel servo? Por que não nos afogais, como o fizerdes no dilúvio? Por quê? Estaríeis vós brincando com Satanás outra vez? Ou seria esta vossa vingança, vossa ira, vosso julgamento? Por termos assassinado vosso favorito, nosso irmão, condenais-nos a vagar fugitivos e vagabundos por esta terra, à qual nenhuma pertenceremos, a qual nosso trabalho não nos dará mais forças. Por termos assassinado vosso favorito, dais-nos uma marca, um sinal, de que a morte não se abata sobre nós, para que vosso anjo não nos leve quando Moisés o chamar, para que permaneçamos aqui, pecando e sofrendo o pecado, sem podermos nos sacrificar, sem podermos nos imolar na labareda derradeira, que nos redimiria e nos purificaria na placidez do fim, do vazio, do nada. Por quê, meu Deus? Porque nos abandonastes. Pai, aproximai de nós esse cálice.

Medida e comparação

Eu não quero mais ser como eles. Não quero mais ser como vocês. Não quero mais ser como nós. Não quero mais ser como eu. No entanto, continuo sendo eu, nós, vós, eles. Eis a medida da minha fraqueza, a medida de nossa miséria, a medida de vossa impotência, a medida da indiferença deles. E no todo, isso, isso que é inominável, antes por calar do que por não se fazer saber.

Quinta-feira, Setembro 01, 2011

À espera de um milagre



Pobre mortal, mortal! Esta palavra...! É teu paradoxo, e todo teu mal...! Pois se fala da morte, mas tu vives. E, vivendo, a palavra mostra o quanto estás distante da redenção de que ela trata, e o quanto, portanto, estás tu presente e profundo na mais sórdida, inescapável miséria! Ah, como é imensa essa distância! Que não se mede em espaço, nem em tempo; mas em sentido! E o que há para ser medido nessa distância é simplesmente o de tudo, tudo! O gigantesco e arrebatador sentido do qual se esvazia a vida e se preenche a morte.

Terça-feira, Agosto 30, 2011

A Fonte dos Desejos



O salão com chão de cristal estendia suas delicadas arcadas para várias direções, em túneis que pareciam refletir espelhos e assim seguiam ligeiramente até o infinito oculto por uma penumbra nostálgica. Cortinas de luz de quartzo e café ficavam atrás da iluminação de um meio de tarde, e sobre o piso vítreo saltava uma figura feérica, mas adulta, de vestido leve, sedoso e esvoaçante. Parecia leve como uma pluma, e em sua dança, desapareceu por trás de uma das finas e claras pilastras de mármore abstrato e colorido.

Lembra-se de tê-la visto assim, antes de se sentar no ar. Atrás de si, abaixo de si, havia um poço entalhado no piso, como se uma grande placa de cristal retangular derretesse em água turva e gélida. De costas para o líquido absolutamente inerte, não podia vê-lo, mas sabia que ali jazia um fluído mais poderoso que o do próprio Lethe. Não iria beber dali. Não iria consumir aquela água para se esquecer do sofrimento e viver superficialmente. Não. Era o poço que iria beber-lhe o corpo e a alma para apagar completamente sua existência, e assim morreria profunda e verdadeiramente.

Sentiu um sono pesado, que cerrou suas pálpebras sugerindo que a leveza da fada era apenas um delírio perto da sensação de bigorna que tinha então. Sentiu seu corpo inclinar-se para trás automaticamente, desejoso, indolentemente ardente por deitar-se na cama definitiva. Sentiu um prazer indescritível, paradisíaco, tomar conta de seu ser ao relaxar cada minúscula parte de sua pele e músculos, que podiam já sentir o fantasmagórico frescor da água derradeira. Mas nesse momento, o encanto da fada voltou a atiçar, e como sofrendo um chacoalhão, seus olhos despertaram preguiçosamente.

Ela começou a cantar uma elegia que aos poucos lhe foi enfeitiçando os ouvidos. Lamentava maravilhas ainda não vistas, sentidas ou exploradas; projetos inacabados; corações partidos. Os versos eram ternos e belos, e, com a tristeza e melancolia nas rédeas da alma, o corpo aos poucos foi se curvando para frente outra vez. Num suspiro relutante, os pulmões anunciaram, enfastiados: tudo bem... mais uma vez... mais um pouco. E os pés descalços tocaram o piso vítreo finalmente. Observados pelos olhos caídos, caminharam miseráveis para uma saída indistinguível.

Nessa hora acordou, num quarto escuro, com uma luz amarela vazando pela fresta da porta. O corpo dormente estava largado sobre um futon onde dormiam mais algumas pessoas que se confundiam com a disforme massa de edredons enrolados e amarrotados. Era uma noite meio morna, meio fresca. Mas se antes sentia seu corpo pesado, agora o sentia plúmbeo. Não houve qualquer intervalo de tempo entre o despertar e o mais acre e profundo arrependimento. Agora sabia, sabia que o demônio havia vencido de novo com suas ilusões perniciosas, e que perdera talvez a única oportunidade que poderia ter em todo seu devir de aceitar a bênção da desexistência plena. Maldito diabo!... ah,... não valia a pena. Como sempre, aquela sibila praticara o mal sem querer mal. Diferente da serpente do Éden, esta é que não sabia discernir nada de nada. Não valia a pena recriminá-la... e, de fato, não era mais capaz sequer de sentir raiva ou mágoa, apenas outra vez os tacos no chão, o carpete, os lençóis, os pijamas, o suor, o corpo, a alma, a vida... e assim, logo veio a náusea, as revoluções em seus intestinos, a aguda dor de cabeça, e tentou se levantar aos tropeços, acordando sua única e verdadeira amiga e companheira. Os outros dormiam; eram os corações intactos, seguros em suas armaduras, alheios em seus sonhos, insensíveis aos grunhidos de dor.

Mas ela era diferente; acordou assustada, e viu com horror os grossos goles de vômito explodirem daquela boca, e o som doente da nojenta pasta atingindo o piso. Viu aquela figura desesperada tontear buscando apoio da parede, sem consegui-lo, enquanto expelia mais regurgitações. Conseguiu, contudo, dominar sua surpresa e se apressou para ajudar, mas foi dispensada com gentileza e gratidão. “Está tudo bem... ”, acenou polidamente com a mão e saiu para a sala. O cunhado assistia à televisão ali, madrugada adentro, e já devia ser por volta da hora diabólica. Passou por ele, que, curioso com seu estado, questionou apenas com uma jogada de olhos. Com vergonha, desviou o rosto e respondeu que já iria providenciar panos, água e baldes para limpar a sujeira que fizera. Mas essa vergonha não era por ter vomitado na casa dos outros, e sim por estar ali, ali! O problema não era, novamente, a casa de outrem, mas o ali, aquela terra, aquele mundo, aquela existência. Tinha vergonha de respirar, de respirar aquele ar azedo, depois daquela oportunidade dourada, desperdiçada, escapada, lamentada, sonhada. Seu Santo Graal, seu cálice de sublime cicuta; o Demônio o havia afastado de si.

“Por quê...? Por que não me deitei para sempre...?”.

Ah, se arrependimento matasse... tudo estaria resolvido.