Cálice
Meu Deus, meu Deus, por que nos abandonastes? Por que nos abandonastes em favor de vosso filho favorito, e por que o deixastes ser sacrificado para remissão de nossos pecados? Por que o fizestes, se, em vossa onisciência, sabíeis que nenhum pecado pode ser redimido por outro corpo, por outra alma, por outro sofrimento? Por quê, por que nos abandonastes? Por quê, meu Deus, por que arrebatar somente a ele, que é divino também, que é forte, que tem fé, e que vos obedece firme e apaixonadamente? E quanto a nós, fracos, pecadores, tolos, mesquinhos, que com nossas próprias mãos cegamos nossos próprios olhos todos os dias? Nós, que bebemos vinagre e dizemos ser vinho, que levamos chicotadas e dizemos ser carícias. Nós, que idolatramos um bezerro de ouro, e nele nos comungamos em fidelidade duradoura e diária, comendo sua carne e bebendo nosso sangue, numa orgia em que não sabemos mais de quem é a carne, de quem é o sangue, de quem é o prato e o dente, a mão ou a labuta. Nós, que nos imolamos no fogo de todos os sóis e nos temperamos no orvalho de todas as luas para que o ídolo dourado não seja derretido. Nós, que inebriados pelo brilho do falso deus vemos nossos rostos desesperados no reflexo de sua lâmina, e, já perfeita a eucaristia, mentimos para nós mesmos, fingindo-nos em nossa arrogância, em nossa hybris, sermos o senhor do deus, e o deus nosso servo. Nós, que em furiosa defesa e homenagem de nossa liberdade, nos atiramos às chamas no lugar do animal que seria nosso bode expiatório, às chamas do inferno que ardem eternamente, que ardem para além do horizonte, para além das gerações, para além das imaginações. E quanto a nós, infiéis, sísifos, gananciosos, teimosos, insensíveis, agressores, cruéis, traidores? E quanto a nós, fracos? Por que não nos levais? Por que não nos fulminais, como o fizerdes em Sodoma e Gomorra? Por que não nos tomais como o fizerdes com os escravos de seu fiel servo? Por que não nos afogais, como o fizerdes no dilúvio? Por quê? Estaríeis vós brincando com Satanás outra vez? Ou seria esta vossa vingança, vossa ira, vosso julgamento? Por termos assassinado vosso favorito, nosso irmão, condenais-nos a vagar fugitivos e vagabundos por esta terra, à qual nenhuma pertenceremos, a qual nosso trabalho não nos dará mais forças. Por termos assassinado vosso favorito, dais-nos uma marca, um sinal, de que a morte não se abata sobre nós, para que vosso anjo não nos leve quando Moisés o chamar, para que permaneçamos aqui, pecando e sofrendo o pecado, sem podermos nos sacrificar, sem podermos nos imolar na labareda derradeira, que nos redimiria e nos purificaria na placidez do fim, do vazio, do nada. Por quê, meu Deus? Porque nos abandonastes. Pai, aproximai de nós esse cálice.



